sexta-feira, 9 de abril de 2010

O escudo da escuridão

Silêncio. A garoa fina e gelada caia sobre o casaco, na boca o cigarro ainda ardia. A cidade estava queta, enquanto todos dormiam o dia caído. Jovens loiras do bairro higiênico sonhavam com seus namorados, os namorados com seus carros. A empregada doméstica dormia profundamente, o diretor da indústria de alimentos susurrava em pesadelos, sua mulher apenas... dormia... já os remédios de Caio surtiam efeito, dormia.
Silêncio! Quetude, a madruagada calada e a cidade morria?
Sua ultima tragada, para mais uma, na calada fria.
O estranho caminhava, atento aos olhares de ninguém.
Pombas noturnas mastigavam os farelos que vazavam das bocas esfomeadas, onde horas atrás o dia ainda vivia. Vivia.
De dia, Julia fora despedida, Ricardo conseguiu a promoção, a máquina de Daniel falhou, causando fila.
Nervosismo, espera, espera... as pessoas caladas se olham, é fila, caladas, com as calças molhadas sentem frio, fingem paciência medida.
Nas ruas, buzina, farol vermelho, congestionamento. Maria leva sua filha para o colégio tradicional, o filho de Jõao pede misérias no farol, Maria não abre o vidro pois chovia.
O dia nervoso corre na rinha.
Quanta gente, a maquina paga as contas, é tudo digital, números, é rápido é tecnologia.
Aguá, luz, telefone, aluguel, condomínio, cartão de crédito. É rápido, é tecnologia.
Perfume, sapato, vestido, relógio. O tempo dita o compasso, a linha, os ponteiros ferozes cobram resultados, metas, vidas.
Flávio e seu relógio de última geração, caixa selada, aço inoxidável, a prova de água, até 100 metros de profundida. Flávio não sabe nadar.
A cidade corre, o congestionamento enrosca, a fila aumenta.
O vestido da vitrine é moderno, é couro sintético.
O filho de Neto rouba a padaria, é detido e espancado, é vítima ou ladrão?
Quem sabe mais que a cidade, que assiste a compulsão de seus moradores...
Mas aos poucos, como feitiço ou maldição a tarde cai e o dia se esvai, sempre. Se não...
De dia a cidade dorme, na sua própria convulsão.
Mas a noite, os rostos cansados estão esgotados, dos senhores, das madames, dos empregados, dos empregadores.
Shhhhhhhhh!
Silêncio, enquanto todos dormem a cidade desperta, vazia mostra sua beleza, rude, concreta, escura, iluminada, vazia... mas linda.
Para poucos a cidade vazia revelas seus segredos, no tempo frio, na garoa gelada, já não sobra mais nada, apenas bons mistérios.

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